A próxima quarta-feira será de alívio e dor para Carmen Mota Gilson. Um alívio e uma dor que nascem do mesmo rio: a saudade. Carmen estará às 11h no 2º Tribunal do Júri, no Forum do Rio de Janeiro, esperando que alguém seja condenado pela morte de seu filho Ricardo Iberê Gilson, ocorrida há mais de 10 anos. Você não leu errado. São mais de 10 anos à espera de Justiça.
Ricardo foi morto no dia 4 de abril de 1999, um domingo de Páscoa. No feriado dedicado a celebrar a vida e a ressurreição, o jovem de 22 anos encontrou seu destino final nas dependências do Hospital Fábio Soares Maciel, que naquela época fazia parte do então complexo penitenciário Frei Caneca, no bairro do Estácio.
Ricardo, um jovem de classe média, era dependente químico desde os 16 anos, quando teve seu primeiro envolvimento com drogas. Desde então, passou por oito clínicas de recuperação, sem nenhum sucesso.
Segundo sua mãe, Carmen Gilson, ele não compreendia o que as drogas faziam com a vida dele nem conseguia entender que na verdade estava doente.
E foi essa dependência que em um dia de setembro de 1998 fez Ricardo entrar em um ônibus, no Leblon, e anunciar um assalto em plena Bartolomeu Mitre. A poucos metros do 23ºBPM (Leblon), Ricardo roubou, fingindo que estava armado, R$ 30 do trocador. Mas foi preso momentos depois de tomar uma coca-cola. Devolveu R$ 29.
Este R$ 1 roubado custou muito. O nome de Ricardo não era Johnny. Como viciado, não teve a mesma complacência que teve o famoso personagem de livro e filme.
Preso, ele foi encaminhado para o Hospital Psiquiátrico Roberto Medeiros, em Bangu. Neste local infernal, escreveu cartas enormes à mãe, relatando as péssimas condições dos alojamentos, escuros e completamente sem higiene. Estas cartas até hoje estão com parentes de Carmen Gilson.
Justiça implacávelEm janeiro de 1999, ou seja, três meses depois, ele seria condenado a oito anos de reclusão no manicômio judiciário Henrique Roxo, em Niterói. E lá, escreveria mais cartas, contando fatos que se desenrolavam dentro da prisão.
No dia 4 de abril, Carmem foi ao Henrique Roxo visitar Ricardo, como de costume. Lá, os funcionários disseram que o filho dela passava muito mal, tendo um rim paralisado. Ninguém explicava o que acontecia. Carmen pediu a presença de um médico, que chegou ao local entre 15h e 15h30 - vindo de outro local. Depois de mais ou menos trinta minutos, o médico se dirigiu a Carmen informando que Ricardo seria transferido para o Hospital Fábio Soares Maciel, no hoje extinto complexo Penitenciário Frei Caneca. Chocada, Carmen seguiu a ambulância até o hospital.
Ela não conseguia ver o filho. Ao pedir isto no Frei Caneca, um agente penitenciário a agrediu verbalmente e disse uma frase da qual ela jamais se esqueceria: "Só se morre quando é chegada a hora".
Carmen teve a sensação de que não era a própria voz, respondendo: "Se isso acontecer, você não sabe o que pode te acontecer". Mas era a própria voz de Carmen, respondendo. O instinto de mãe falava.
Falta de informaçãoCarmen foi para casa, depois de muitas negativas. Pelo telefone, falou com a médica responsável, que repetiu o mesmo diagnóstico do primeiro médico: Ricardo estaria com diarreia há quatro dias, e agora com infecção intestinal.
Carmen se irritou, chamando a médica de mentirosa, dizendo que havia visto seu filho dias antes e que este se encontrava bem, não se queixando de nenhuma dor. Neste momento, o amigo que a acompanhava puxou o telefone de sua mão e falou com a médica. Esta lhe disse que Ricardo estaria morto.
Tudo foi feito para se abafar a morte de Ricardo e, principalmente, para abafar que havia marcas de agressão. Mas os laudos do Instituto Médico-Legal mostraram que Ricardo possuía inclusive marcas de estrangulamento, e que esta seria a verdadeira causa de sua morte. Estes mesmos laudos mostrariam que, além do estrangulamento, Ricardo tinha marcas de quem tentou se defender.
O caso permaneceu como inquérito policial por quatro anos. Depois de uma entrevista dada ao programa
Fantástico, da TV Globo, o Ministério Público ofereceu a denúncia, dando prosseguimento ao processo. Por mais seis anos o Parquet manteve o processo. E agora, depois de 10 anos e 7 meses, o caso vai a júri popular. Durante todo esse período, tanto os agentes quanto a médica não foram presos e continuaram exercendo suas atividades profissionais.
O próprio governo estadual, em 2001, reconheceria o crime cometido por seus agentes: uma Clínica de Recuperação de Dependentes Químicos na cidade de Vassouras foi inaugurada com o nome de Ricardo Iberê Gilson.
À véspera do julgamento, mais um pedido de adiamentoAgora, é a Justiça que vai definir tudo. Os agentes penitenciários José Nivaldo Melo, Jorge José Riqueira da Paixão e Eustáquio Cirino de Souza, além da médica Cali Galiasso vão a julgamento quarta-feira. A médica tentou adiar o julgamento com um pedido de HC, mas o juiz Paulo Baldez negou o mesmo nesta sexta-feira, dia 6 de novembro.
O caso de Ricardo nos obriga a muitas reflexões: sobre liberação ou não de uso das drogas, sobre a formação e profissionalização do agente público, e sobre a ética destes mesmos agente.
E uma reflexão parece ser maior do que todas: desistir da Justiça está além das nossas possibilidades.